Prefeita de Pederneiras defende protagonismo feminino e cobra mais espaço para mulheres na vida pública
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Atualizado: há 12 horas

Ivana Camarinha participa de encontro promovido pela ASEMESP, em Barueri, compartilha trajetória marcada por superação, critica barreiras estruturais e aponta o esporte como instrumento estratégico de inclusão e gestão.
Por Paulo Pinto / Global Sports
São Paulo, 24 de março de 2026
Realizado em Barueri, no dia 5 de março, o encontro promovido pela ASEMESP em celebração ao Dia Internacional da Mulher reuniu lideranças femininas, gestoras públicas e especialistas em uma programação voltada à formação, ao debate e ao fortalecimento da presença feminina na administração pública. Entre as palestrantes, a prefeita de Pederneiras, Ivana Maria Bertolini Camarinha, apresentou uma fala que foi além do relato de trajetória política. Em um depoimento direto, emocional e, ao mesmo tempo, firme, a dirigente expôs os desafios enfrentados pelas mulheres na vida pública e reforçou a necessidade de ampliação do protagonismo feminino nos espaços de decisão.

À frente de um município com pouco mais de 50 mil habitantes e em seu quarto mandato, Ivana construiu uma trajetória marcada por posicionamento, enfrentamento e resiliência. Sua fala não se limitou à exposição de conquistas administrativas, mas avançou sobre as estruturas que ainda limitam a presença feminina na vida pública brasileira.
“Eu sou fanática pela defesa da mulher. Toda a minha vida política é pautada, principalmente, pelos temas relacionados à emancipação e ao desenvolvimento das mulheres.”
Barreiras estruturais e sub-representação
Ao longo de sua exposição, a prefeita destacou que, apesar dos avanços institucionais, como a Constituição de 1988 e a atuação de organismos internacionais, a presença feminina nos espaços de poder ainda é reduzida.

Segundo ela, dos 645 municípios mencionados no contexto do evento, apenas 67 são administrados por mulheres — número que representa cerca de 11% do total.
“A gente é sempre minoria. Muitas vezes não nos querem para sermos eleitas, mas apenas para preencher chapa”, afirmou, ao abordar práticas recorrentes no processo eleitoral.
Ivana também chamou atenção para o ambiente hostil enfrentado por mulheres que decidem ingressar na vida pública.
A crítica se estende ao ambiente político, que, segundo ela, ainda se mostra estruturalmente masculino e, muitas vezes, hostil à participação feminina.
“É um ambiente declaradamente masculino. A mulher precisa vencer uma barreira que para o homem não existe, antes mesmo de começar.”
Violência, exposição e enfrentamento
A fala, forte e direta, não busca vitimização, mas expõe uma realidade que, segundo ela, ainda é negligenciada. “A gente evolui tanto em tecnologia, mas regride na humanidade.”

Em um dos momentos mais impactantes da palestra, a prefeita relatou episódios de violência e intolerância vividos ao longo de sua trajetória política. “Um dia eu estava na calçada da minha casa com a minha netinha e jogaram uma pedra em mim. Vocês têm noção do que é isso? Apedrejar uma pessoa por discordar politicamente?”
Gestão com representatividade
Apesar das adversidades, Ivana defende um modelo de gestão baseado na pluralidade e na inclusão. Em sua administração, diferentes perfis convivem e participam da construção das políticas públicas.
“Tenho mulheres secretárias, homens, pessoas jovens, pessoas mais velhas, pessoas negras, pessoas homossexuais. É um governo com representatividade.”

Para ela, essa diversidade não é apenas simbólica, mas funcional, contribuindo para decisões mais equilibradas e conectadas com a realidade. “Esse equilíbrio é essencial para a construção de políticas públicas mais eficientes e conectadas com o dia a dia da população.
O esporte como eixo de transformação social
Ao abordar o papel do esporte na gestão pública, Ivana apresentou uma visão pragmática e alinhada com políticas de inclusão social, destacando a atividade esportiva como ferramenta estruturante de transformação. Com formação na área da saúde, a prefeita reforçou a importância do esporte não apenas como prática física, mas como instrumento de acesso, prevenção e desenvolvimento humano.
“O esporte educa, é saúde, evita drogas, tira as crianças da marginalidade. É um instrumento de trabalho fundamental, que socializa, oportuniza e promove inclusão de verdade”, afirmou.

Em sua gestão, a política esportiva é tratada como eixo estratégico de aproximação com a população, ampliando o alcance das ações públicas e fortalecendo vínculos comunitários, especialmente entre crianças, jovens e mulheres em situação de vulnerabilidade.
A prefeita também ressaltou o papel estratégico da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Juventude na aproximação com a população. “É através do esporte que a gente chega nas pessoas. Ele conecta, inclui e transforma.”
Ressignificação de vida e decisão política
A entrada de Ivana na política não seguiu um caminho convencional. Sua decisão foi tomada após um momento crítico de saúde, quando enfrentou um câncer de mama agressivo.
“Quando você descobre uma doença, você repensa a vida. Eu entendi que tinha sido poupada para cumprir uma missão.”
Sem apoio inicial, enfrentando resistência familiar e sem estrutura política, decidiu se candidatar. “Eu não tinha apoio, não tinha dinheiro, não encontrava nem vice. Mas quando você decide, você luta e vai.”
Eleita aos 37 anos, passou a enxergar a política como vocação. “Política não é profissão, é um chamado.”
Políticas públicas voltadas às mulheres
Desde o início de sua gestão, Ivana estabeleceu como prioridade o cuidado com a mulher, estruturando políticas públicas específicas que abrangem saúde, proteção e inclusão social para diferentes fases da vida.
Entre as iniciativas, destacam-se o Centro de Atenção à Saúde da Mulher e a Casa da Mulher, espaços que atuam no acolhimento e na orientação de mulheres em situação de vulnerabilidade. “Quando você cuida da mulher, você cuida da família inteira.”
Ela também destacou a importância da abordagem estratégica para garantir acesso aos serviços.
“Se você diz que é um espaço para mulheres vítimas de violência, ninguém entra. Então você precisa criar um ambiente acolhedor, que ofereça outras portas de entrada.”
Posicionamento firme contra o machismo
Ivana não evitou temas sensíveis e criticou abertamente manifestações recentes de cunho misógino, inclusive no esporte, além de apontar casos de violência que têm chocado o país.
Segundo Ivana, os episódios se repetem em diferentes contextos e revelam um cenário extremamente preocupante. “Em todos os lugares acontece o mesmo, e cada vez mais vemos coisas mais absurdas em pleno século 21.”
A dirigente citou, como exemplo recente, um episódio ocorrido no futebol brasileiro, quando o zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, afirmou em entrevista ao vivo que a Federação Paulista de Futebol não deveria escalar uma mulher para apitar um jogo “desse tamanho”. A declaração foi direcionada à árbitra Daiane Muniz, que, durante a partida, recebeu elogios reiterados da imprensa. “Quem é ele para falar dessa forma sobre uma árbitra talentosa e com currículo impecável?”
A prefeita reforçou que a luta por igualdade ainda enfrenta resistência tanto no ambiente profissional quanto no cotidiano. “Tem mulher machista também. É triste, lamentável, mas é real.”
Ivana reiterou que, infelizmente, ainda há uma tentativa constante de invalidar a emancipação e a projeção das mulheres nos ambientes profissional e doméstico.
Ao ampliar a reflexão, a prefeita também mencionou um caso recente de extrema violência ocorrido em Itumbiara (MG), onde um homem matou os próprios filhos com o objetivo claro de atingir a mãe das crianças. “Isso pode ser tudo, menos amor”, decretou.
Posicionamento e legado
A prefeita de Pederneiras concluiu mostrando um mosaico daquilo que prega em sua gestão. “Lugar de mulher é onde ela quiser estar. Minha sugestão aos prefeitos é investir conscientemente no esporte, que é um grande aliado de toda e qualquer administração que prioriza a qualidade de vida dos seus munícipes.”
Deixo aqui uma frase para vocês pensarem. “Ser mulher e atleta já é um ato de resistência. Nós usamos o nosso corpo, a nossa presença, a nossa voz para quebrar essas regras de uma sociedade que sempre tentou ditar onde deveríamos estar, a gente pode estar e fazer o que a gente quiser.”
Gente, espero de verdade que eu consiga inspirar ao menos uma pessoa. Sempre eu falo, acredite em você e a pessoa que antes apenas te olha, ela começa a te admirar. A gente tem que buscar o nosso espaço. Parabéns para a Asemesp, para o Mauzler Paoli e o presidente Tom Moisés pela realização de um evento tão importante para as mulheres e o esporte do estado de São Paulo.





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